A dificuldade de aceitar mudanças na rotina, experimentar novos alimentos ou lidar com frustrações pode representar um grande desafio para pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Essas situações estão relacionadas à rigidez cognitiva, característica que pode interferir na qualidade de vida e nas relações familiares e sociais. O tema foi abordado na palestra “Rigidez Cognitiva e Crises Agressivas no TEA”, que abriu a edição do “TJMT Inclusivo: Autismo e Direitos das Pessoas com Deficiência – PCD”, promovido pelo Poder Judiciário de Mato Grosso nesta sexta-feira (09), em Cuiabá.A palestra foi ministrada pelo médico Thiago Barbosa Gusmão, neurologista da infância e adolescência e mestre em Análise do Comportamento. O especialista explicou os mecanismos neurológicos e comportamentais envolvidos na dificuldade de adaptação a mudanças e apresentou orientações para prevenir situações de crise.
Segundo ele, a rigidez cognitiva é caracterizada pela dificuldade de flexibilizar pensamentos e comportamentos diante de situações inesperadas. Na prática, pode se manifestar pela necessidade de seguir sempre o mesmo caminho, utilizar determinadas roupas, consumir alimentos específicos ou manter uma rotina rigorosamente organizada.
Embora pareçam comportamentos simples, pequenas alterações podem provocar sofrimento intenso em pessoas autistas. Isso porque a repetição e a previsibilidade funcionam, muitas vezes, como mecanismos de segurança e autorregulação emocional.
“Uma das principais características que impactam a qualidade de vida da pessoa com autismo é a rigidez de comportamento. É um padrão de repetição que muitas vezes funciona como forma de autorregulação, mas que também pode interferir na alimentação, nas experiências sensoriais e na convivência social”, explicou Thiago Gusmão.
O especialista destacou que os comportamentos rígidos não estão restritos à infância. Eles podem acompanhar a pessoa durante a adolescência e a vida adulta, trazendo dificuldades para os relacionamentos, a convivência familiar, a socialização e a inserção no mercado de trabalho.
Compreender para prevenir Um dos principais pontos da palestra foi a relação entre rigidez cognitiva e crises agressivas. O médico explicou que, diante de uma frustração ou mudança inesperada, algumas pessoas autistas podem apresentar dificuldades para reorganizar o pensamento, controlar impulsos e encontrar alternativas para lidar com a situação.
Essas dificuldades estão relacionadas às funções executivas do cérebro, responsáveis por habilidades como planejamento, atenção, controle emocional e adaptação a novas situações. Por isso, comportamentos de irritabilidade ou agressividade não devem ser interpretados automaticamente como desobediência ou falta de limites.
“Quando conseguimos compreender a função de um comportamento agressivo, podemos nos antecipar e evitar que a crise aconteça. Isso representa mais dignidade e qualidade de vida para a população autista”, ressaltou o neurologista.
Thiago Gusmão também alertou para a importância de diferenciar a rigidez cognitiva de outros transtornos comportamentais, como o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD). Segundo ele, nem toda resistência, irritabilidade ou recusa representa um comportamento opositor, sendo necessária uma avaliação individualizada para identificar suas causas.
Outro aspecto destacado foi a influência da ansiedade e da depressão, especialmente entre adolescentes e adultos autistas. Essas condições podem intensificar as dificuldades de autorregulação emocional e aumentar a vulnerabilidade a situações de crise.
Orientação para famílias e profissionais
Para o especialista, compreender a rigidez cognitiva é essencial para que familiares, professores e profissionais da saúde possam identificar situações que provocam sofrimento e desenvolver estratégias adequadas de acolhimento. Entre as medidas estão a preparação antecipada para mudanças, a organização de rotinas previsíveis e o desenvolvimento gradual da flexibilidade comportamental.
O neurologista também chamou a atenção para o diagnóstico tardio do autismo, lembrando que muitos adultos convivem durante anos com dificuldades sem identificar sua relação com o TEA. Segundo ele, ampliar o conhecimento sobre o transtorno contribui para avaliações mais adequadas e para a melhoria da qualidade de vida em todas as fases da vida.
A palestra integrou a programação do TJMT Inclusivo, iniciativa do Poder Judiciário de Mato Grosso voltada à conscientização, à disseminação de informações sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), neurodivergências, saúde mental e ao fortalecimento dos direitos das pessoas com deficiência
Com mais de 1,5 mil inscritos, a iniciativa foi organizada pela Comissão de Acessibilidade e Inclusão do TJMT, presidida pela desembargadora Nilza Maria Pôssas de Carvalho, vice-presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, em parceria com a Escola Superior da Magistratura de Mato Grosso (Esmagis-MT), Escola dos Servidores, Prefeitura de Cuiabá e Assembleia Legislativa de Mato Grosso.
Todas as palestras estão disponíveis no canal do TJMT no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=OlbiGYBPvmU.
Em 2026, o TJMT Inclusivo percorreu o interior do estado, com edições realizadas em Sorriso, Lucas do Rio Verde e Tangará da Serra. A iniciativa dá continuidade ao trabalho desenvolvido pelo Judiciário mato-grossense nos últimos anos. Só em 2025, foram capacitados mais de três mil profissionais e familiares de Cuiabá, Cáceres, Rondonópolis e Sinop.




















