Procurador desde 2017 e homem apontado pelo então secretário de Fazenda Rogério Gallo como de sua “inteira confiança”, Hugo é, paralelamente, empresário.

Procurador de “inteira confiança” de Gallo está no centro de rede empresarial ligada ao governo Mauro Mendes

publicidade

Família, relações de confiança no serviço público e negócios privados se cruzaram em diferentes pontos da estrutura de poder do Governo Mauro Mendes. Secretários, servidores, filhos, esposas, genros e empresários próximos aos principais núcleos da administração aparecem conectados por uma rede de sociedades que atravessa energia, agropecuária, holdings, construção, logística e gestão de recursos. No centro de parte significativa dessas conexões está um servidor de carreira: o procurador do Estado Hugo Fellipe Martins de Lima.

Procurador desde 2017 e homem apontado pelo então secretário de Fazenda Rogério Gallo como de sua “inteira confiança”, Hugo é, paralelamente, empresário.

Documentos analisados pelo VGN mostram que ele é sócio de Lucimara Polisel Gonçalves, esposa de Gallo, e de Hélio Palma de Arruda Neto, genro do ex-chefe da Casa Civil Mauro Carvalho Júnior. Também mantém sociedades com Hélio Vicente Filho. A partir desses três personagens, as conexões empresariais avançam e alcançam Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro Mendes, além de registros que relacionam o grupo a Fernando Robério de Borges Garcia, o Berinho, pai de Fábio Garcia.

O cruzamento não comprova favorecimento, participação de agentes públicos em atos ilícitos ou irregularidade nas empresas. Revela, contudo, uma proximidade pouco usual entre função pública, hierarquia administrativa, parentesco e interesses empresariais privados, suficiente para levantar questionamentos sobre potenciais conflitos de interesses e sobre quais barreiras existiam dentro do Estado para separar negócios particulares das atribuições de seus agentes.

É uma rede que, quando observada por partes, pode parecer formada por relações independentes. Quando os registros são colocados lado a lado, porém, os mesmos núcleos familiares e políticos começam a se reencontrar.

Hugo, procurador e empresário

Hugo ingressou como procurador do Estado em 4 de agosto de 2017, mas já possuía atividade empresarial.

Em novembro de 2016, integrava a Gomes de Souza & Martins de Lima Ltda. Depois de assumir a função pública, novas participações foram incorporadas ao seu histórico.

Em 18 de julho de 2022, entrou na CGH Guata SPE Ltda.; em novembro daquele ano, na Turn Tax Serviços e Negócios Ltda.; em agosto de 2023, passou a integrar o conselho de administração do Terminal Portuário de Cáceres S.A.; em junho de 2024, abriu sua sociedade individual de advocacia; e, no mês seguinte, ingressou na Rio Grande Agropastoril e Florestal Ltda.

É justamente nessas sociedades que o procurador começa a conectar diferentes núcleos do Governo Mauro Mendes.

O homem de confiança de Gallo é sócio da esposa de Gallo

A conexão mais direta começa na própria Secretaria de Fazenda.

Hugo é sócio da CGH Guata SPE Ltda. Na mesma companhia está Lucimara Polisel Gonçalves, esposa de Rogério Gallo, na condição de sócia-administradora.

A relação empresarial coexistiu com a proximidade funcional entre Hugo e Gallo.

Essa sobreposição veio à tona durante uma CPI da Assembleia Legislativa que apurava acordos e devoluções de ICMS. Questionado sobre a sociedade do procurador com sua esposa, Gallo afirmou, segundo o relato de seu depoimento, desconhecer o vínculo.

Ao mesmo tempo, declarou que Hugo era pessoa de sua “inteira confiança” e que, caso o procurador tivesse empresa, saberia.

Os registros empresariais mostram que Hugo tinha empresas e que uma delas era compartilhada justamente com Lucimara.

A situação produz uma contradição que permanece sem resposta: como um secretário podia manter tamanha relação de confiança funcional com um procurador e desconhecer que ele era sócio de sua própria esposa?

O procurador não compareceu à CPI

A CPI também pretendia ouvir Hugo sobre acordos e devoluções de ICMS. Ele não compareceu.

O procurador argumentou que, em sua interpretação jurídica, o rol de autoridades obrigadas a prestar informações pessoalmente ao Legislativo seria limitado aos chefes de instituições e secretários. Informou ainda estar em licença-prêmio previamente concedida e colocou-se à disposição para responder questionamentos por escrito.

Nessa data, Hugo atuava na Secretaria de Estado de Fazenda.

Leia Também:  MPF e MPMT voltam a pedir suspensão imediata das obras no Portão do Inferno em MT

A informação adquire relevância diante da estrutura empresarial hoje conhecida: o procurador convocado para esclarecer questões relacionadas à Fazenda era sócio da esposa do ex-secretário que havia comandado a pasta e o considerava pessoa de sua inteira confiança.

Lucimara, Hugo e Hélio Vicente

A CGH Guata revela outra conexão.

Além de Hugo e Lucimara, Hélio Vicente Filho aparece no núcleo societário da empresa.

A relação entre Hugo e Hélio Vicente se repete na Rio Grande Agropastoril e Florestal Ltda., na qual Lucimara também figura como sócia-administradora.

Assim, os mesmos três personagens aparecem novamente no entorno das mesmas sociedades:

Hugo Fellipe + Lucimara Polisel + Hélio Vicente Filho.

Outro elemento aproxima operacionalmente as empresas. Os contatos comerciais da CGH Guata e da Rio Grande Agropastoril utilizam o e-mail HUGOLIMA4@GMAIL.COM, associado ao procurador.

Hélio Vicente possui ainda histórico de vínculo com a Abelha Táxi Aéreo e Manutenção Ltda. Os documentos disponíveis registram relação trabalhista com a empresa, inclusive como piloto de aeronaves. O material analisado até aqui, porém, não apresenta alteração contratual ou quadro societário. Além disso, ele aparece como sócio na Abelha Master Investimentos e Participacoes Ltda.

Rogerio Gallo; Lucimar; Hugo Procurador

Do núcleo de Gallo ao núcleo de Mauro Carvalho

A próxima conexão passa pela Turn Tax Serviços e Negócios Ltda.

Hugo é sócio da empresa desde novembro de 2022.

Outro integrante da sociedade é Hélio Palma de Arruda Neto, genro de Mauro Carvalho Júnior, um dos homens mais próximos de Mauro Mendes e ex-chefe da Casa Civil.

Hugo passa, assim, a ocupar uma posição peculiar no mapa.

Pela CGH Guata, liga-se empresarialmente à esposa de Rogério Gallo.

Pela Turn Tax, liga-se empresarialmente ao genro de Mauro Carvalho.

E pelas sociedades compartilhadas com Hélio Vicente, abre outro braço da mesma rede privada.

O genro de Mauro Carvalho chega ao filho de Mauro Mendes

A conexão seguinte é documentalmente mais extensa.

Hélio Palma constituiu, em abril de 2023, a empresa atualmente denominada H4 Holding Ltda. Segundo os registros analisados, ele detém atualmente 97% das cotas, enquanto sua esposa, Camilla Carvalho Arruda, possui 3%.

Em agosto de 2024, a H4 adquiriu 10% da VS Energia.

Em março de 2025, ocorreu nova reorganização societária. Os fundos 5M Capital e Green Lake deixaram a VS e foram substituídos pela Sollo Energia S/A, com 55%, e Vyas Energia Participações S/A, com 35%. A H4 permaneceu com 10%.

Na mesma reorganização, Hélio Palma e Luís Antônio Taveira Mendes, filho de Mauro Mendes, assumiram conjuntamente a administração da VS Energia, empresa com capital social de R$ 21 milhões.

É aqui que dois núcleos familiares do primeiro escalão se encontram empresarialmente de maneira objetiva:

Hélio Palma, genro de Mauro Carvalho, administra uma companhia ao lado de Luís Antônio, filho de Mauro Mendes.

E Hélio Palma, por sua vez, é sócio de Hugo na Turn Tax.

A conexão fica assim:

Hugo Fellipe → Hélio Palma → Luís Antônio Taveira Mendes → Mauro Mendes.

Do outro lado:

Hugo Fellipe → Lucimara Polisel → Rogério Gallo.

E ainda:

Hugo Fellipe → Hélio Palma → Mauro Carvalho, por vínculo familiar.

No centro das três rotas está o mesmo procurador do Estado.

H4, São Vicente e VS Energia

A H4 também entrou na São Vicente Geração de Energia SPE Ltda.

A companhia havia sido criada em 2022 pelos fundos 5M Capital, com 60%, e Green Lake, com 40%. Em setembro de 2024, a H4 adquiriu 10% da sociedade.

Posteriormente, a São Vicente foi incorporada pela VS Energia e extinta em janeiro de 2025. A H4 permaneceu, entretanto, com participação na empresa incorporadora.

Leia Também:  Justiça manda Estado nomear 492 policiais penais, advogados, psicólogo e assistente social

Pouco depois, Hélio Palma e Luís Antônio assumiram juntos a administração da VS.

A sucessão das operações mostra que a conexão entre os dois não decorre apenas de uma classificação produzida por banco de dados. Ela está registrada na administração da mesma companhia.

Berinho aparece em outro braço

O mapa também alcança Fernando Robério de Borges Garcia, o Berinho, pai de Fábio Garcia, que ocupou a Casa Civil no Governo Mauro Mendes.

Em um dos relatórios analisados, Luís Antônio aparece como “sócio” de Fernando Robério.

Em outro sentido, o relatório de Fernando Robério identifica Hélio Palma de Arruda Neto entre seus vínculos classificados como societários.

Uma rede que atravessa setores dependentes do próprio Estado

As conexões não surgiram recentemente.

Hugo já possuía atividade empresarial antes da PGE e ampliou sua presença em sociedades depois de assumir o cargo. Hélio Palma possui diversas participações e holdings. Luís Antônio aparece em diferentes empresas. Fernando Robério possui trajetória empresarial de décadas.

Os negócios alcançam energia, agropecuária, construção, logística, holdings, gestão de recursos e participações empresariais.

Parte desses setores, conforme a natureza de cada empreendimento, depende de licenciamento ambiental, autorizações, fiscalização ou outros atos do poder público estadual. Empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental, por exemplo, podem depender de procedimentos perante a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, a Sema.

Isso não permite concluir que qualquer licença tenha sido facilitada ou que alguma empresa tenha recebido tratamento privilegiado.

Mas torna ainda mais relevante saber quais mecanismos de impedimento, declaração de conflito e segregação de funções foram utilizados quando interesses empresariais de servidores, familiares ou sócios se aproximavam de decisões do Estado.

Onde terminava a confiança e começava o interesse privado?

O ponto central não está em uma sociedade isolada.

Está na repetição das relações.

Hugo, procurador do Estado, é sócio de Lucimara, esposa de Gallo.

Hugo é também sócio de Hélio Palma, genro de Mauro Carvalho.

Hélio Palma administra a VS Energia com Luís Antônio, filho de Mauro Mendes.

Hugo e Hélio Vicente aparecem juntos em mais de uma sociedade.

Lucimara também se reencontra nesse núcleo empresarial.

E Fernando Robério, pai de Fábio Garcia, aparece nas bases relacionais conectado a personagens da mesma rede.

Nenhum desses fatos, isoladamente, comprova irregularidade.

Em conjunto, porém, formam uma estrutura na qual relações familiares, confiança política, hierarquia funcional e sociedades privadas se aproximam repetidamente.

É dessa proximidade que surge o potencial conflito de interesses.

Não porque os documentos demonstrem, até aqui, um ato específico de favorecimento, mas porque mostram que pessoas responsáveis por exercer ou cercar o poder público também estavam ligadas por interesses privados que, em alguns casos, alcançavam setores sujeitos à atuação regulatória do próprio Estado.

Um governo de confiança entre poucos

Mauro Mendes governou cercado por um núcleo de auxiliares de confiança. Os registros empresariais mostram que parte dessa confiança também encontrava correspondência fora dos gabinetes.

No centro dessa fotografia está Hugo Fellipe.

Procurador desde 2017, empresário simultaneamente, homem da “inteira confiança” de Rogério Gallo e sócio da esposa do ex-secretário.

A partir dele, os caminhos levam a Lucimara Polisel, Hélio Vicente e Hélio Palma. A partir deles, chegam, por relações empresariais ou familiares, a Rogério Gallo, Mauro Carvalho, Luís Antônio Taveira Mendes, Mauro Mendes, Fernando Robério e Fábio Garcia.

A documentação não permite afirmar que o Governo Mauro Mendes tenha sido estruturado para beneficiar empresas de amigos ou familiares.

Permite, entretanto, formular uma pergunta mais incômoda e talvez mais relevante: Em um governo no qual relações de confiança, parentesco e negócios privados se encontravam tantas vezes, onde terminava o círculo dos amigos e sócios e começava, efetivamente, a distância exigida pelo interesse público?

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Previous slide
Next slide