Saúde mental e autocuidado pautam debate no Dia do Servidor

publicidade

>
Comunicação >
Notícias

CUIDAR DE QUEM CUIDA

por ANA LUÍZA ANACHE

terça-feira, 27 de outubro de 2026, 18h09

A importância de reconhecer limites, combater a naturalização do sofrimento e fortalecer redes de apoio esteve no centro das reflexões realizadas durante a programação do Dia do Servidor Público do Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), em Rondonópolis (a 212 km de Cuiabá), nesta segunda-feira (26). A palestra “Saúde Mental no Serviço Público” e a roda de conversa realizada na sequência reuniram especialistas, membros e servidores para debater os impactos da sobrecarga emocional e caminhos para a promoção do bem-estar e da qualidade de vida no ambiente de trabalho.


 


Ministrada pelo médico psiquiatra Milan Patrício Bata Mitrovitch, a palestra abordou fatores que podem contribuir para o adoecimento emocional no ambiente de trabalho e alertou para a necessidade de identificar precocemente sinais de sobrecarga. Segundo o especialista, a busca por produtividade e desempenho não pode levar à naturalização do sofrimento nem ao desrespeito aos limites individuais.


 


“Estamos vivendo uma era tão acelerada e com uma demanda de produtividade e eficiência tão grande que estamos esquecendo que somos seres humanos. Muitas vezes não respeitamos os nossos próprios limites na exigência por resultados. A gente acaba acreditando que conseguirá dar conta de tudo, mesmo quando os sinais de esgotamento começam a aparecer. Com isso, passamos a normalizar situações que deveriam acender um alerta e deixamos de reconhecer que a nossa própria humanidade impõe limites que precisam ser respeitados”, afirmou.


 


Ao longo da exposição, Milan Mitrovitch destacou que o trabalho pode representar propósito, pertencimento e realização pessoal, mas também se tornar um fator de desgaste quando associado a excesso de demandas, conflitos e falta de apoio. Para ele, a saúde mental deve ser encarada como uma responsabilidade compartilhada entre profissionais e instituições.


 


“Não devemos naturalizar o sofrimento como preço inevitável do compromisso com o serviço. Ambientes saudáveis dependem também de carga sustentável de trabalho, liderança respeitosa, recursos adequados e prevenção dos riscos psicossociais. A saúde mental não é apenas uma responsabilidade individual. Ela também é resultado da forma como o trabalho é organizado, das relações estabelecidas dentro das equipes e do apoio oferecido pela instituição para que as pessoas consigam exercer suas funções de maneira equilibrada e segura”, ressaltou.


 


O médico também chamou a atenção para sinais de desgaste emocional, como irritabilidade, ansiedade, alterações do sono, dificuldade de concentração e isolamento social. Segundo ele, reconhecer precocemente esses sintomas e buscar ajuda especializada são medidas fundamentais para prevenir o agravamento dos quadros de sofrimento psíquico.


 


“A gente se acostuma com tudo, até com aquilo que nos faz mal. Por isso, é importante parar e refletir sobre o que está consumindo nossa energia, quais limites precisam ser estabelecidos e com quem podemos contar quando a sobrecarga se torna excessiva. Muitas vezes seguimos em frente sem perceber que estamos acumulando desgaste emocional, físico e mental. Quanto mais cedo reconhecermos esses sinais e buscarmos apoio, maiores serão as chances de prevenir o adoecimento e preservar a qualidade de vida”, pontuou.


 


Roda de conversa – As reflexões apresentadas durante a palestra serviram de ponto de partida para uma roda de conversa mediada pela promotora de Justiça Gileade Pereira Souza Maia, coordenadora do Núcleo de Qualidade de Vida no Trabalho – Vida Plena, com a participação da promotora de Justiça Patrícia Eleutério Campos Dower, do servidor Rodrigo Rondon Barbosa e do médico psiquiatra Milan Patrício Bata Mitrovitch. O momento permitiu aprofundar os temas discutidos anteriormente e compartilhar experiências relacionadas aos desafios emocionais vivenciados no serviço público.

Leia Também:  MPMT pede cumprimento de sentença e cobra fechamento de lixão


 


Ao abrir o debate, Gileade Maia destacou que discutir saúde mental no serviço público significa olhar para a realidade de profissionais submetidos diariamente a demandas complexas, pressão por resultados e situações de sofrimento humano. Segundo ela, além das atitudes individuais, a construção de ambientes mais saudáveis depende de ações institucionais permanentes voltadas ao cuidado das pessoas.


 


“É importante lembrar que a saúde mental no trabalho não depende apenas de escolhas individuais. Ela também é influenciada pelas condições de trabalho, pelas relações profissionais, pela organização das atividades e pela forma como a instituição reconhece e previne os riscos psicossociais”, observou.


 


Durante a conversa, Rodrigo Rondon Barbosa compartilhou experiências relacionadas à atuação na área criminal e aos impactos emocionais decorrentes do contato permanente com situações de violência e vulnerabilidade. Segundo ele, os profissionais frequentemente precisam lidar não apenas com a complexidade dos casos, mas também com a necessidade de preservar o próprio equilíbrio emocional.


 


“Lidar diariamente com o sofrimento humano já é algo complexo. Quando ouvimos diretamente o relato das vítimas, especialmente em casos envolvendo violência doméstica e crianças, não saímos os mesmos daquele atendimento. São histórias que nos marcam e exigem constante atenção à nossa própria saúde emocional”, relatou.


 


Ao comentar os desafios de separar a vida profissional da pessoal, o servidor observou que a dedicação ao trabalho pode levar ao aumento gradual da carga emocional suportada pelos profissionais. “A gente acaba aumentando gradativamente o nosso limite e, em determinado momento, já não consegue mais enxergar qual é esse limite. Por isso, reconhecer quando precisamos de ajuda e buscar apoio profissional jamais deve ser visto como sinal de fraqueza”, defendeu.


 


A promotora de Justiça Patrícia Dower compartilhou reflexões sobre os impactos da sobrecarga na rotina profissional e familiar. Ela destacou que o autocuidado ainda é um desafio para muitos profissionais e que cuidar da própria saúde é condição essencial para continuar exercendo as atividades com equilíbrio e qualidade. “A gente precisa aprender a se cuidar, a se valorizar mais e entender que a prioridade também precisa ser a nossa saúde. Quando conseguimos fazer isso, trabalhamos melhor, nos relacionamos melhor com as pessoas que amamos e nos tornamos mais felizes”, afirmou.


 


Patrícia Dower também ressaltou o papel de colegas e gestores na identificação de sinais de sofrimento emocional dentro das equipes. Segundo ela, atitudes simples de acolhimento podem contribuir para que profissionais sobrecarregados se sintam apoiados e procurem ajuda. “Acho que precisamos prestar mais atenção em quem está ao nosso lado. Às vezes, uma simples pergunta, um convite para conversar ou um gesto de apoio podem fazer toda a diferença para alguém que está passando por um momento difícil”, acrescentou.


 


Outro tema debatido foi a diferença entre empatia e absorção excessiva do sofrimento alheio. Ao abordar a questão, Milan Patrício Bata Mitrovitch explicou que profissionais que atuam em contato direto com situações delicadas precisam desenvolver mecanismos saudáveis de proteção emocional para evitar que as experiências dos outros comprometam sua qualidade de vida. “Empatia não significa carregar o problema do outro. Nós podemos acolher, ouvir e ajudar sem assumir para nós uma responsabilidade ilimitada. Quando passamos a levar todas essas vivências para dentro de casa e deixamos de viver a nossa própria vida, é um sinal de que algo precisa mudar”, explicou.

Leia Também:  Série debate uso da IA na atuação do Júri nesta sexta-feira (9)


 


No fim da roda de conversa, os participantes defenderam a ampliação de iniciativas voltadas à promoção da saúde mental e da qualidade de vida no ambiente de trabalho, além da descentralização das ações institucionais para alcançar membros e servidores de diferentes regiões do Estado. “Que este evento possa ser o início de um processo de autoconhecimento, de autocuidado e de fortalecimento da nossa saúde mental. Nós nos preocupamos muito com o sofrimento dos outros, mas muitas vezes esquecemos de olhar para nós mesmos”, afirmou o servidor Rodrigo Rondon Barbosa.


 


Ao agradecer o convite, Milan Patrício Bata Mitrovitch reforçou a necessidade de combater a normalização do sofrimento e fortalecer redes de apoio dentro e fora do ambiente profissional. “Quando o outro passa a ser visto e acolhido, conseguimos promover mudanças reais. Reconhecer o sofrimento, estabelecer limites saudáveis e cultivar relações de apoio são passos fundamentais para construir ambientes de trabalho mais humanos e saudáveis”, concluiu.


 


Encerramento – Ao finalizar o evento, o procurador de Justiça Paulo Roberto Jorge do Prado destacou a importância dos servidores para o fortalecimento institucional e relembrou a evolução do Ministério Público ao longo de seus 37 anos de atuação na instituição. Ao recordar o período em que trabalhou em Rondonópolis, ressaltou o crescimento da estrutura ministerial e a contribuição dos profissionais para a consolidação do MPMT.


 


“Vocês fazem com que essa instituição seja forte. Vocês tenham orgulho de pertencer ao Ministério Público e de fazer com que a sociedade, quando chega ao Ministério Público, seja acolhida e bem recebida. Hoje são milhares de pessoas trabalhando pela cidadania, pelas crianças e adolescentes, pelo meio ambiente e por uma sociedade mais justa. Parabéns a todos vocês”, afirmou.


 


A subprocuradora-geral de Justiça de Gestão e Planejamento, Anne Karine Louzich Hugueney Wiegert, destacou o caráter histórico da primeira edição descentralizada da celebração do Dia do Servidor Público realizada no interior do Estado. Ela ressaltou que o principal patrimônio da instituição são as pessoas e defendeu a valorização permanente daqueles que contribuem para a missão institucional.


 


“O Ministério Público é uma instituição de pessoas. O nosso grande valor é desenvolver, capacitar e cuidar de pessoas para que essas pessoas possam transformar a vida de outras pessoas. A tecnologia vem para somar e otimizar o trabalho, mas não substitui aquilo que temos de mais essencial: a capacidade de enxergar o outro, de sentir o outro e de agir com empatia”, ressaltou.


 


Ao concluir, a subprocuradora-geral reforçou que a celebração representou não apenas uma homenagem aos servidores, mas também um momento de reflexão sobre o propósito da atuação ministerial. “Por tudo o que somos, fazemos e entregamos, estamos aqui celebrando a nossa existência como seres humanos e como servidores públicos. Que possamos continuar valorizando o propósito que carregamos e a missão de acolher a sociedade em suas maiores necessidades”, finalizou.


 


Realizado de forma descentralizada em Rondonópolis, o evento foi promovido pelo Núcleo de Qualidade de Vida no Trabalho (Vida Plena), em parceria com a Coordenação das Promotorias de Justiça do município, reunindo membros, servidores e colaboradores presencialmente e por meio da plataforma Teams. A iniciativa integra as ações de valorização das pessoas desenvolvidas pelo MPMT e reforça o compromisso institucional com a promoção da saúde, do bem-estar e da qualidade de vida no ambiente de trabalho.

Galeria de imagens

Compartilhe nas redes sociais

facebook twitter



Fonte: MPMT

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade

Previous slide
Next slide